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Boletim de Ocorrência -
Quero pedir desculpas a todos. Creiam-me, minha ausência foi forçada. Espero que entendam, depois que eu narrar aqui o ocorrido, os fortes motivos da minha ausência desta Hora do Café e também de outros lugares, durante essas semanas. Infelizmente, nem sempre as coisas acontecem como a gente quer. Esse mundo está atingindo níveis alarmantes de violência e ninguém está a salvo. Aproveito para fazer aqui meu protesto contra a situação lamentável em que se encontra esse país, no tocante à segurança de seus cidadãos. Hoje, a gente sai de casa e não sabe se volta...
Fui vítima de um seqüestro. Uma BMW X5, prata, me abordou ali perto da Faria Lima e duas mulheres loiras, igualmente lindíssimas (digo igualmente porque as lindezas foram feitas no mesmo cirurgião plástico) me convidaram a entrar, apontando para mim suas bolsas Fendi logotipadas, ameaçando me bater com elas se eu não entrasse imediatamente no carro. Entrei, lógico, e aí notei no banco traseiro mais uma mulher, esta morena e um pouco mais nova, mas igualmente igualmente, que me pediu licença e, com suas bem cuidadas, aneladas e delicadas mãos vendou meus olhos com uma echarpe Dior estampada, que exalava o mais inebriante Boucheron. As portas foram travadas e rapidamente tomamos o rumo do Morumbi (eu acho). Rodaram comigo por algumas horas; visitaram amigas, deram muitas risadas, conversaram sobre cabeleireiros, cirurgias plásticas, viagens à Europa, fins de semana na fazenda, lojas em Paris e, principalmente, falaram muuuuuuito ao celular. Achei que a intenção era me irritar mesmo... Tentaram me intimidar, principalmente a morena, me cutucando a toda hora com o salto de seu Blahnik, dizendo que iam me levar para Punta del Este e me abandonar numa mesa de bacará, se eu insistisse nessa merda gratuita de "Blog" que eu faço... Aí é que fui perceber que a coisa era séria. Elas sabiam que eu era o Zé do Café! E elas eram Daspuzettes! E não gostaram nem um pouco do último post... Tremi diante dessa constatação e meu pensamento se concentrou em meus familiares, que àquela hora deviam estar jantando na frente da TV, nem sonhando com o que eu passava e com os dias de tensão que viriam... Quando já era noite, achei que iriam me soltar, mas me levaram para um cativeiro, ali pelos lados dos Jardins, uma mansão, onde fiquei sem comunicação, numa suite decorada pelo Bergamin, com lencóis e toalhas Trousseau, home theater e som Bang & Olufsen, uma coleção de DVDs de filmes e shows, e um frigobar em inox, abarrotado de sucos, Evians, muito prosecco e alguns chocolatinhos Lindt. Na hora das refeições uma criada vinha me comunicar o menu, nunca repetido nesses dias todos, que vinha com a assinatura Toninho Mariutti. Foram 15 dias trancado nesse cativeiro, de onde saí apenas uma vez, para ir ao Iguatemi comprar uma roupinha básica (Armani) para que estivesse apresentável no vernissage de um amigo delas, onde só fui porque souberam do meu interesse nas artes e com a minha promessa de não abrir o bico. No resto dos dias, muito champagne, caviar e piscina à tarde. Hoje posso dizer que só o pensamento em minha família me ajudou a resistir àqueles dias no cativeiro (pelo menos quando me lembrava dela). Não desejo isso ao meu pior inimigo (não mesmo!). Bom, resolveram esta semana me soltar, depois de um almoço ao ar-livre no Figueira, um Carmenère maravilhoso a harmonizar e finalizado às baforadas de um belo Davidoff... (Essa gente sabe fazer o serviço. Profissionais mesmo...) Me deixaram ali nas imediações da Oscar Freire, apenas com U$1.500 no bolso, que me foram dados com o intuito de me convencer a não falar mais sobre o que não conheço. Elas não querem que eu fale mais da loja delas e ponto final. Vaguei pelas ruas vendo aquelas vitrines, por algumas horas ainda, tentando colocar a cabeça no lugar... Resolvi então ligar para casa (a cobrar) e dizer que estava tudo bem.

Consegui bater essa foto do cativeiro com o celular da empregada da tarde, que ficou com pena de mim. Ela me mandou pela internet, dias depois, pelo computer Dell que ela tem no quarto...
Todos em casa ficaram muito felizes ao me ver. Minha mãe chorou (disse que há muito tempo não me via tão saudável...) e resolvemos não comunicar nada à polícia. Agora estou aqui, graças ao Oni, junto aos meus, tentando esquecer tudo... mas confesso, está difícil, muito difícil...
PS - Quanto ao dinheiro, enquanto vagava pelos Jardins, doei compulsoriamente tudo para uma instituição de caridade de meninos de rua cheiradores de cola. Inclusive, eles mesmos vieram retirar... Ô vida, viu?
Escrito por Zé do Café às 16h49
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Chique chiqueiro - Pequeno e surreal conto realista
Ela via chegar seus trinta anos de vida, o futuro já começando a deixar de ser uma motivação para se tornar uma preocupação. Mas aquele emprego ela disse que caiu do céu. Finalmente, os esforços para pagar seus estudos e tentar ser uma secretária bilíngüe seriam recompensados. Não era exatamente o que ela sonhava, mas foi o que ela conseguiu. As coisas andam muito difíceis e a falta de dinheiro parece que é geral. A seleção não foi fácil; muitos candidatos e as exigências demais: ler e escrever bem, falar um outro idioma, ter boa aparência (a pele pode até ser escura, mas os dentes, absolutamente não; bom peso e boa estatura, cabelos e mãos apresentáveis e bem cuidados), ser simpática e comunicativa (saber ser educada, agradável e sempre sorridente), ter uma boa base de conhecimentos gerais, ser bem informada, ter bons hábitos higiênicos e acima de tudo, saber ficar no seu devido lugar e não prestar atenção em conversas alheias. E bons antecedentes, evidentemente. Ela viu que nessa hora o fato de ter se empenhado tanto na vida para ser uma boa pessoa pesou a seu favor. Além de nunca ter feito nada que a desabonasse em sua vida, ela tinha também o nome limpo na praça (porque ela nunca tivera crédito, essa era a verdade...). Ela atendia bem aos requisitos. Ela conseguiu um emprego na nova loja Daspu, chiquéÉÉérrima, que abriu suas suntuosas portas um dia desses. Suas amigas do curso de secretariado (uma faz trufas para vender, e a outra, velas decorativas) ficaram até com inveja. Mas ela merece! No serviço, ela fica andando pelas salas das griffes mais importantes do mundo, impecavelmente uniformizada, como uma copeira, levando uma linda bandeja de prata nas mãos e, ao elegante sinal de uma cliente, ela se aproxima, diz seu boa tarde abaixando sutilmente a cabeça com um sorriso, segura a bandeja na altura do pescoço e espera, sem dizer nada... E a cliente pode cuspir em sua cara quantas vezes quiser. Depois disso, ao sinal da cliente, ela deve se retirar. Não era exatamente o que ela sonhava, mas foi o que ela conseguiu. As coisas andam muito difíceis...

Este anúncio da nova loja está chamando bastante a atenção das clientes, pela beleza do vestido.
Escrito por Zé do Café às 00h02
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